22/12/2011

Ronda Poética - Lucinda Prado


O amor está gritando perto de mim
Ronda- me os sentidos, assinala que vem,
Amedronta-me a alma, arrepia o corpo,
Vem chegando mansamente, não fujo.

Abro meu peito numa coragem sem fim
Deixo que entre, que se lambuze de mim,
Prevejo um brilho purpurinado em meus olhos
Farejo em meu corpo cheiro de amor.


Como um louco, vou dançar com você.
Vou cantar loucamente suas canções
Vou chorar alegremente em meus poemas
Vou sonhar acordado, com momentos sem fim.

Depois você se vai! Terá que ir!
Detesto amores eternos, te expulso de mim.

Deixará versos espalhados nas gavetas
Deixará em meu espelho, sua sombra etérea,
Que rondará meu leito nas noites insones.
Deixará seu riso ecoando em meus ouvidos.

Deixará a marca de teu corpo em meus lençóis azuis
Teu perfume se espalhará por minha alma
Arrancando rimas, espalhando liras.
Sou louco poeta - eis minha arte.

O amor está gritando perto de mim
Ronda- me a alma, assinala que vem.

Maria e José - Lucinda Prado e Monsyerr Batista

Era Maria

Sonhos e fantasias de menina

Trazia a coralina... 

Maria vinha de cora
Vinha pura, vinha limpa
Maria corria, Maria dançava.
Maria cantava e sorria
Maria era Livre



Era José

Que chegou 

Lá das bandas dos Campos Elíseos

Veio no seu cavalo alado
Trazendo as mãos cheias
De estórias de lutas
Castelos, bruxas, donzelas
Dragões e espadas heróicas
José amava a justiça 
E a liberdade



Agora

Era Maria

Era José

Era José e Maria
O novelo e a agulha
Que em sua dança
Rodopiava, tecendo a trama 
Que o coração
Conhece e fia



José não era mais cavaleiro

Era um anjo da conquista

Era no céu risonho da bela

Heróico mito de Heitor
A luz do sol e a fantasia
Cantado em versos, prosas
Contos e poesias
Era o ar que ela respirava
Era Maria apaixonada
Era José oitava maravilha


Agora era tudo diferente

O mundo inteiro para dois amantes

Frenéticos e apaixonados

Todo encanto de amor e prazer

Selaram pactos, trocaram juras
Românticos castelos visitaram,
José acomodou-se das aventuras
Pra dedicar-se inteiro ao amor
Não mais lutava, com dragões e bruxas
Cantava loas, declamava versos
Toda lua cheia era para Maria


Mas chegou um dia José se calou

Suspirou um tanto entediado 

Não fazia mais versos, nem cantava

Seu olhar perdeu-se no vazio

E Maria agora já não empolgava
Viu-se reclamada companhia


Maria observava, Maria pedia
Se chorava ninguém sabia 
Maria sentia, Maria sofria
Não via mais nele a mesma alegria
Tudo ao redor era cinza rotina
E Maria pediu
E Maria rezou
E Maria entendeu o que o acometia


Lá se foi José no seu cavalo alado

Levou sua Maria só no coração

Vestiu a armadura de lutas de outrora

Pra outras aventuras, pra outras dimensões
Lá ficou Maria junto do castelo
A se olharem de longe nas dobras da lua
Com longos bordados
Feitos de renuncia
Feitos de ternura, amor e devoção



Depois da partida veio a tempestade

Depois a bonança em seu coração

Maria acordou certo dia

Surpresa, voltara a sonhar 
José também, e voltou a lutar



Maria sentia-se novamente amada

José percebia que ela 

Era sua força para vencer 

E nas noites de lua, vem vindo José
Aninhar-se no leito de sua Maria
Agora o castelo só sabe dizer
Maria José
José Maria.



**Versão da obra original de Lucinda Prado feita por Monsyerrá Batista 

Na foto: Lucinda e Monsyerrá escrevendo Maria & José

06/12/2011

Duelo Comigo Mesmo - Lucinda Prado

Se você quiser eu fico
Mas você quer e não quer
Você fica no molho, tolo
Escolhe ficar em cima do muro
Então fecho os olhos, boca ,mente
Me pego nesse duelo
Você e eu ...eu e você.

Deixe queimar meus riscos
Amar-te e morrer nos teus braços
Quero viajar nos teus lábios
Dilacerar meu amor é meu risco
Mas você impede-me o voo
Afasta-me com afagos,me puxa de volta
Apontando-me outros amores,outros caminhos
quase viajo na sua sugestão,mas não.

Se você quiser eu fico
Mas você quer e não quer
Fica num lero-lero
Num quero, não quero...

Foto : Lucinda Prado

21/11/2011

Padeirinho Matutino



Abri os olhos preguiçosos... Lentamente fui Tomando pé de tudo... Onde estava... Quem era e tal. De repente, me dei conta; o barulho que me havia acordado, eram os gritos do leiteiro à nossa porta. Corri para expiar pela janela. Seu Juca havia deixado o leite sob a soleira da casa e já seguia trotando com seu cavalo pedrês, atrelado a uma carroça velha, com suas pinturas de flores vermelhas descascadas, semicorroída pelo tempo. Pasmei-me ali... Quieta, amoitada, como uma raposa espreitando sua caça. Apenas uma greta da janela me permitia vigiar a rua, na certeza que ele viria... Meu coração disparou, suei frio, uma dor na boca do estômago gritou como se fosse fome, sem ser. Era o sinal... Ele havia apontado lá na esquina.


Eu o achava tão lindo, tão másculo... tão ...tão – hoje sei que nem era lindo, nem másculo e nem tão... tão...


Vinha ele, quase deslizando pela rua sem asfalto, de cascalho grosso, muitas vezes escorregadio, equilibrando no ombro direito, um cesto com pães. Quando passava em frente de minha janela todas as estrelas do céu vinha me saudar. Era o sonho realizado do dia, fadinhas pareciam saltitar ao meu redor. E saía rodopiando feliz nos primeiros encantamentos de uma paixão adolescente. Minhas hormonas totalmente abolitivas me fazendo imaginar as cenas mais ”Carrareanas” do mundo.


Todas as manhãs, tudo se repetia – me acordava com os gritos de Juca, o leiteiro, corria para a janela a espiar pela brecha... Sonhos e fantasias povoavam meu imaginário o resto do dia. Julgava meu segredo, totalmente seguro e totalmente meu. Assim, os dias foram passando molemente, chegou uma noite em que fui ao aniversário de Ritinha, minha amiga ali da vizinhança, quando estou lá no “dança - dança, fala- fala”, meus olhos foram atraídos por uma figura que estava chegando junto com o Lúcio, irmão mais velho de Ritinha. Pernas tremeram, joelhos chocalharam, boca secou, língua calou. Era ele, nem seu nome eu sabia - era ele, meu padeirinho matutino - que aflição, que vontade evaporar no ar. Pedia a Deus que um redemoinho desses que traz dentro um capetinha – passasse por ali e me levasse para as alturas das montanhas, para o Japão que fosse, mas me tirasse dali.


Seus olhos descobriram-me ali no canto de pavor, e, mais aparvalhada fiquei quando ele veio em minha direção, com andar certeiro, que era pra não deixar dúvida que era o homem do pedaço – na verdade apenas um pouco mais adolescente que eu – Ele chegou seguro, acautelado, lento, olhar fixo em meus olhos, gestos precisos, estendeu a mão e me tirou para dançar. A minha sorte foi que naqueles dias, estava em moda dançar solto, separado, eu não conseguia atinar nem com o ritmo que tocava naquele momento, fiquei meio que bestiada, olhando para ele, encantada, muda, tensa. De repente comecei a ouvir lá longe a voz de Tim Maia cantando - **não quero dinheiro, quero amor sincero... A semana inteira. Só quero amar, só quero amar - Começamos a dançar e dançamos juntos por mais ou menos um ano. Ele foi meu primeiro namorado, meu primeiro beijo na boca, minha primeira paixão.


Assim como os amores adolescentes passam, ele passou.



Assim como os amores adolescentes passam, ele passou.



Outros amores, outros beijos ...







Série Memórias - A Menina Que Procurava



Gravura - Reprodução da obra de Salvador Dalí - Cesta de pão



* carrareanas - relativo a Adelaide Carraro



** música de Tim Maia - Não Quero Dinheiro

13/11/2011

Entrevista de Lucinda Prado e Mano Men para a jornalista Marta Nascimento


ASAS DO VENTO -Lucinda prado – marta nascimento

Te busquei , não te encontrei

Te imaginei voando no céu azul

Quem sabe em busca de um ninho

Ou talvez a procura de um carinho


Te procurei na barra rendada da lua

No calor do sol do meio-dia

Fui mais longe, te procurei em Marte

Pedi as estrelas notícias suas


Perguntei pra Tupi, Iracema e Iemanjá

Mas, foi Oxóssi quem deu a notícia

Você foi buscar novos caminhos

Novas melodias e se deixou ir   


Nas ondas do vento, oh , oh

Nas ondas do vento, oh,oh

20/10/2011



Frequentando Drummond- Versos Presos (Lucinda prado)

Certos versos ficam presos
Adormecidos num recanto da alma.

Sei a senha, não sei decodificá-la.
Senha das palavras, livros da vida.

Talvez os tenha esquecido
Nas páginas de um livro fechado.

Se os procuro incessante
Há de achar-me o desânimo.

Hei de procurá-los no mundo
Quem sabe adormecidos na sombra
De um volume da vida, raro.

Senhas da existência
Senhas do mundo

Decifrá-las será desencantar
Meus versos contidos.

Certos versos ficam presos
Num recanto da alma.

Se os procuro incessante
Minha procura será meus versos.


Uma referência ao poema de Carlos Drummond de Andrade - A Palavra mágica

10/10/2011

O Palhaço - Lucinda Prado e Ana Paula Fumian

Me despi de mim

Pra vestir de você

Das suas cores e risos

Fiz a alegria das multidões

Que seguia o palhaço

Na suas alegrias e piruetas

Mas o que não sabiam

era o que rosto do palhaço

Não refletia ... seu coração.



Seu coração

Era terra sem dono

Cheirava abandono

E não tinha sementes

Pra nascer

Não tinha um nariz

De plástico

Era coração de palhaço

Mas sua arte era sofrer



Me despi de mim

Pra vestir as cores

Que te dei da aquarela

Eu quis colorir

Seus vazios

E a falta da cor

Do seu coração frio

De um palhaço infeliz

Que levava a alegria

Mas ainda não sabia

Encenar o amor


By Ana Fumian e Lucinda Prado

Foto: Lucinda Prado em vestes de palhaço

06/10/2011

MARIA, A DOIDA - Lucinda Prado

Quem foi que te disse que aqui tem pouso
Vai-te daqui com seus molambos encardidos
Quem sabe seu Benedito se apieda de ti
Te empresta o paiol para uma noite dormir.

Maria se vai com seus teres em trouxa
Gingando seu corpo, gordo, sujo, imundo!
Cai aqui, se levanta pra cair, mais suja ficou!
Olhos de rosto que o tempo deu um tapa, coitada.

Mãe, pai ninguém sabe quem são, que importa?
Diz nascida de uma noite de tormenta, agonia.
Não teve amor, logo não sabe do que se aventa
Coitada da Maria, tão gorda, tão suja, tão só.

Janelas e portas se fecham quando aponta Maria,
Menino corre pra dentro que lá vem Maria
Maria da Glória, do Carmo, de Fátima?
Quem é Maria? Ninguém sabe não.

Seu Benedito não acolhe pra noite de chuva
Maria de não sei de quê, só sabem que é louca, doída?
A chuva engrossa, o céu desmorona, trovão,
Na cabeça de Maria a trouxa se rompe, estrondos.

Coitada da Maria carrega dolente... Expia,
Pesadamente a saga de suas Marias...
A visão se turva ,o corpo fraqueja ,geme
Seu cão late sentido, dorido, urgente.

Na beira da estrada por chuva lavada, cavada
Encontram Maria amontoada na vala
Vala da vida, seu leito de morte
Morre Maria! Coitada, sozinha!
Quem foi que morreu?
Ninguém não... Foi apenas Maria,
Maria? Maria? O que é Maria?


Foto: google -

02/10/2011

Diálogo Poético de Além-mar - Lucinda Prado


“Sou todo teu, vida minha!”
Repliquei entre doces afagos de amor:
“Não quero todo, apenas as melhores partes.”
Respondeu-me com afável olhar de malícias:
“Para que precisas de meus ouvidos?”

“Para que ouças meus gemidos emaranhados
Em meus versos, docemente sussurrados,
No ressoar incerto de minha voz
Entre dentes... Puros cicios de amor

Para que sintas meu gritar de desejos
Em meus seios premidos contra teu peito
E nas batidas descompensadas de meu coração
Ouvirás meu gozo profundo, doce mistério sem fim.

Se encostar teus ouvidos em meus pulsos
Escutarás baixinho, meu chamado amigo
Para que te percas nas dimensões de risos
No ritmo e som do meu amor infindo

Ou quem sabe, quando de mãos dadas sairmos
Ouvindo Beethoven em sua Nona Sinfonia
Possamos junto ouvir o chamar dos céus
Nas notas musicais ternas de Für Elise."

22/09/2011

Eretismo - Lucinda Prado


A alma se fez candente
Em inquietações desconcertantes
Impelindo pensamentos devassos
Contra um corpo arquejante!

Rapidamente no cérebro estanca
No afã de ideias insanas
Um feixe de luz alavanca
Loucos instintos, chispantes!

Corpo e alma na forja ardente
Rija a boca... Contorce o dorso
Na suprema convulsão delirante
Esmaga a pele, range os dentes!

Do corpo emanam faíscas instigantes
Encontram raios, espasmos, gritos
Rotação lenta entre corpo e alma
Corpo e alma lentamente descansam!

07/09/2011

Asas do Vento - Lucinda Prado e Marta Nascimento

Te busquei , não te encontrei

Te imaginei voando no céu azul

Quem sabe em busca de um ninho

Ou talvez a procura de um carinho


Te procurei na barra rendada da lua

No calor do sol do meio-dia

Fui mais longe, te procurei em Marte

Pedi as estrelas notícias suas


Perguntei pra Tupi, Iracema e Iemanjá

Mas, foi Oxossi quem deu a notícia

Você foi buscar novos caminhos

Novas melodias e se deixou ir


Nas ondas do vento, oh , oh

Nas ondas do vento, oh,oh

......

Foto: Lucinda prado
Veja a música aqui

04/09/2011

Uirapuru - Lucinda Prado e mano Men



Uma letra minha musicalizada por Mano Men - ornando um vídeo sobre a instição do Uirapuru - editado por Célia Braga e publicado na França.

20/08/2011

Escandalosa - Lucinda Prado

De Gargalhadas cristalinas
De dentes brancos afiados
Menina moleca nas artes
Mulher exuberante e sonhadora
Quem te vê assim feliz, cantante
Quer te alcançar, estrela luminosa.

Rodopiando com seu Vestido rodado
Espalhando Flores dos cabelos
Nova Gabriela com cravo e canela
Doce menina, pimenta mulher.

Sorrisos para as crianças
Risadas para os velhos
Gargalhando de si mesmo
Dança, rodopia e encanta
Desperta inveja e cobiça

Vamos cantar, vamos dançar
Vamos dançar, vamos cantar
Segue com ela
Ricos, pobres, homens, mulheres
Vamos todos gargalhar.

foto: Lucinda Prado

03/08/2011

Deslumbramento - Lucinda Prado

Reconheço teu sorriso
Entre mil bocas,
Quentes!
Conheço teu toque
Entre mil mãos
Suaves, Ardentes!

Alcanço tua alma,
Limpa, cristalina,
Linda!
Versos fortes,
Intensos!
Voz melodiosa
Brados, Falsetes!

Beijos incertos,
Sedução!
Andar cadente,
Firmes!
Olhos dourados,
Assombrados, assustados.

Derramamento de desvelos,
Carícias e meiguices.
E ainda me pergunto;

Eros...
Ludus...
Storge... Paixão?


Da série - Divagando

Foto: Lucinda Prado

02/08/2011

23/07/2011

FRENESI - Lucinda Prado

Olhos de fogo, unhas negras afiadas.
Boca escancarada a vomitar injurias...
Você despiu-se de si, vestiu-se de negro
Calçou botas de ferro a me subjugar
Cuspiu palavras de fogo

Despi de mim e tal qual
Um anjo descaído te ouvi tirano
Tudo turvou, meus olhos molharam
De ódio e dor
Dor sufocante de injustiça

Com botas tirânicas sufocou meu grito
Ouviu-se presente o homem de garras afiadas
Um anjo descaído ouvia
Verdades imbuídas de fel
Da boca dantes amor
Saiu ódio, sentenças de morte.

Qual vela acesa sua imagem escorreu
Ouvi palavras se transformando em pedras
Vi chispas e labaredas sendo disparadas em minha direção
Fogo cruzado entre o bem e o mal
E um anjo descaído em mim te ouviu
Fez-me correr de dor e agonia.

Mas um vento soprou em você
Apagou-se o fogo de lucífer
O anjo descaído se despiu de mim
E restou seu olhar aparvalhado
Mirou fundo minh` alma
Espreitou-me dorida
Secou-me os olhos...
Aparou minha dor
Estreitou-me nos braços e te reconheci.

**********************
A obra de arte de Picasso, pintada entre 1920 e 1930, e exibida somente uma vez publicamente, desde 1951, retrata uma de suas amantes, Marie-Thérèse Walter.

19/07/2011

O VOO DA FÊNIX - Poema escrito a oito mãos



Nota : Este poema nasceu de uma chamada para que alguém pudesse dar continuidade a uns versos meus, como vários poetas se propuseram a faze-lo, então resolvemos entrelaçar todos os versos . Essa organização foi feita pelo Pecchia.
Os Poetas:
Antonio Carlos de Paula, Alfredo Martino, Ana Paula Fumian, Paulinho Natureza, Marco Aurélio Morales do Nascimento,Pecchia e Lucinda Prado


Uma sombra se escondia
Lisa, flutuante desconcertante,
No pescoço uma cobra em pérolas
A ornar sua garganta santa, mansa,
A ferir tal qual ponta de lança
Suas vestes escorriam em curvas de seda,
Macias, como das rosas, as pétalas.

Seu corpo recebendo maciez deslizante,
Lindo rosto moreno, trigueiro irônico.
Na voz um tilintar feminino, sinfônico,
Moldura de cor de manhã ensolarada.
Uma cascata de luz a moldar suas faces fortes,
Nos olhos delineados largos e precisos
O impacto de olhares, fortes, incisos,
Ecoando na calçada.

Para a festa da tristeza,
Melancolia, desilusão.
Dissipou a escuridão,
Era a sombra do desencanto.
Vestida em traje de gala
Derrapou por entre as curvas,
Charme de orvalho após a chuva,
Dor infinita de sedução.

Doce magia!
Desnudo frente ao espelho
E naquele rosto trigueiro,
Moldava o penteado.
Aconchegou-se
No frágil coração,
Da estrada da solidão
Teve seu corpo desejado.

E o vermelho encanto,
emoldurado de luz
Coloriu sua vida despida
E não menos sofrida
Que havia em seu coração.
Quem roubou o seu sonho?
Houvera de ser alguém!
Raptou seu olhar, assombrou seu encanto,
Quem? Então quem?

Cristais de vidro ao chão...
Rolou um pranto de estrelas!
Por que se dar por vencida,
Tantos caminhos na vida,
Quem a visse, a desejaria,
Mas quem a possuísse,
Por certo a deixaria esquecida.
Então quem?

Quantas curvas na estrada.
Lágrimas que dos olhos escorriam,
Disfarçavam, escondiam
Um retalho de neblina.
Desengano em sua fisionomia.
E por haver encanto e desencanto,
E mesmo banhada em prantos,
Ainda assim,
Seu escravo morreria.

Ouviu-se uma música ao longe
Triste e sozinha, ela se pôs a dançar.
Os passos, no entanto eram firmes.
Seu vestido vermelho, tal qual um véu,
Trouxe-me novamente a fênix
Que dançando no céu brincou de voar.
Que a noite vazia, esta não queria acabar.
O espírito do medo chegou sem fazer alarde
E os sons que a ele se prendiam
Pisou no seu manto, quem?
Sombra covarde..

Foto:http://lucasaerograffartes.blogspot.com/2009/11/fenix-de-preceitos-...

13/07/2011

UIRAPURU - Lucinda Prado

Canto de amor ecoando nas matas
Arrancando do peito doce saudade
Meus olhos buscam longe uma imagem
Desbotada no preto e branco de meu pensar.

Oh! meu uirapuru de peito branco
Em que galho você se esconde
Vem trazer seu lindo canto
pra minha vida encantar.

Oh! meu uirapuru de asas brancas
Canta, canta seu cantar.
Melodias de paixão
Para meu amado despertar

Seu canto é sinfonia de Heitor
A embalar os sonhos de meu amor
Meu passarinho trovador
Canta, canta seu cantar

Foto Google

07/07/2011

Homem de luz – Lucinda Prado

Quando você me visitou
Fez-se luz nos meus olhos
Brilho luzente... Acalantos.
Teu brilho me confundiu a retina.

Julguei-me no mundo dos mortos
Ai de mim – mero engano!
Você saltou do mundo dos anjos,
Ofereceu-me tua luz etérea

Quando te vi assim, luz diáfana
Experimentei uma coragem além de mim
Trouxeste contigo a flor puríssima
Florais de fadas e doçuras de mel.

Senti em meu corpo seu bem querer
revivi, renasci e me refiz quando te vi
O mundo me acolheu novamente
E você se foi... Pura luz cristalina.

Foto: Monsyerrá Batista - Serra do Cipó/MG

25/06/2011

Desvarios - Lucinda Prado

Sou papel em branco
Tenho que escrever a vida novamente
Vazios... Nada, nem sombras.
Onde fui parar que não me encontro?
Minha alma deve ter ficado dependurada
Na lua, nas estrelas, ou nos galhos do sol.

Caminho sem encontrar a estrada
Mergulho sem encontrar águas
Amo, mas não sei quem é você.
De repente tudo se perdeu
Onde estou?

Da série divagando
Foto: Monsyerrá Batista

24/06/2011

Sugestão de livro - 125 contos - Guy Maupassant(estou lendo e adorando)

Na apresentação dessa coletânea de contos de Guy de Maupassant publicada pela Companhia das Letras, Noemi Mortiz Kon conta que a educação literária do escritor ficou por conta de ninguém mais, ninguém menos do que Gustave Flaubert. A condição para ser aceito como pupilo é que escrevesse sem parar e que não publicasse seus primeiros textos. O resultado desse “treinamento” de Flaubert fica óbvio ao constatarmos o tamanho do livro (mais de 800 páginas) e a qualidade dos contos nele presentes. E se pensar que foram escolhidos (ou seja, outros ficaram de fora), temos aí um autor que realmente levou a sério a tarefa de escrever ininterruptamente.
Os 125 contos presentes na coletânea mostram o que há de melhor na prosa de Guy. Os grandes contos, mais conhecidos do público, como Bola de Sebo e O Horla estão lá, assim como obras geniais do horror, o caso do conto A Morta e Sobre a água. Retratos ácidos da sociedade em que vivia também ganham destaque, sempre com uma conclusão irônica a respeito do que foi contado.
A estrutura das histórias normalmente se repete, sendo que os contos normalmente começam com alguém que relatará algum evento que tenha algo a ver com o que está sendo conversado no início. Apesar da estrutura e dos temas se repetirem, o interessante é que Maupassant consegue tornar cada conto único, e muito bom. A leitura é feita com prazer, prende a atenção e chega a ser quase viciante: mal termina um conto, o leitor já deseja continuar seguindo em frente para o próximo.
A questão do retrato da sociedade também é bem interessante. Para pessoas que tem interesse no século XIX, mais precisamente na França do século XIX, Guy de Maupassant é simplesmente fundamental. O grande mural de personagens que ele cria, mostrando a burguesia de modo cínico, com todos os seus defeitos e mesquinharias é simplesmente genial. Não há maniqueísmo, há apenas a imperfeição humana sendo mostrada através de palavras.
E falar de Maupassant sem tocar na questão do horror é quase um crime. As histórias que ele escreve não deixam nada a desejar a grandes nomes como Edgar Allan Poe. Misturando elementos fantásticos ao cotidiano de uma maneira ímpar, alguns contos ficam um bom tempo na memória após a leitura. Cemitérios, mortos, escuridão. Os elementos se combinam criando um efeito surpreendente, que certamente agradará até quem não é muito fã de histórias de terror.
A seleção de contos de Noemi Moritz Korn é extremamente feliz. 125 Contos de Guy de Maupassant é daqueles livros para deixar na cabeceira da cama e ser degustado, página à página, tal e qual aquele chocolate caro e delicioso que você não deseja que acabe tão cedo. É um daqueles casos em que você vê o tamanho do livro e fica feliz por saber que tem muito, muito daquele autor ali para aproveitar.

Fonte:
blog:http://blog.meiapalavra.com.br/?s=125+contos

21/06/2011

Eretismo - Lucinda Prado

A alma se fez candente
Em inquietações desconcertantes
Impelindo pensamentos devassos
Contra um corpo arquejante.

Rapidamente no cérebro estanca
No afã de ideias insanas
Um feixe de luz alavanca
Loucos instintos, chispantes.

Corpo e alma na forja ardente
Rija a boca... contorce o dorso
Na suprema convulsão delirante
Esmaga a pele, range os dentes.

Do corpo emanam faíscas instigantes
Encontra raio, espasmos e gritos
Rotação lenta entre corpo e alma
Corpo e alma lentamente descansam.

16/06/2011

Aquela mulher – Lucinda Prado


Quem será aquela mulher
Tão misteriosa...
Escondida por trás de tantos panos?
Seu rosto não se vê,
Apenas um fantoche ambulante

Vive sozinha, isolada do mundo,
Numa triste espera de morte - talvez!
Saberia a razão de tal desventura?
Ou apenas se revolta
Sem saber por que tamanho infortúnio.

Ouvimos apenas sua voz, ainda, doce.
A ditar as regras de nossa rara presença
Sua vergonha a faz voltar para seu mundo de solidão.
Por detrás de sua mascara, se protege.
Cuidados, embaraços... Medos.

A rapidez dos acontecimentos
Nos tira o entendimento preciso
Mil perguntas sem respostas
Dúvidas cruéis...
Ir... Voltar.

Minhas angustias se misturam as suas
Posso até ouvi-la orando
Sentir suas amarguras
Perceber o que te acalenta nas insônias...
São suas orações, fé inabalável
O mal de Lázaro não a afastou de Deus
Apenas mutilou seu corpo.

******
Foto: Lucinda Prado – Casa onde encontramos esta mulher.
Ela vive em um lugar no Vale do Jequitinhonha/MG

11/06/2011

Amor inteiro – Lucinda Prado e Carlinhos Motta


Quero o prazer de te amar
E continuar a te amar

Tantas vezes te peço doce amada
Resida em meu coração, em minha alma.
Mas não faça deles seu escravo
Ama-me também por inteiro

Quero o prazer de seu toque sutil
Seu cheiro de gata no cio
Sua voz a me encantar
Mas quero amor livre, sem precisão.

Este é meu ideal de amor
Se assim me quiseres
Venha para os meus braços,
Deixe-me te amar, te desejar.
Querer-te por inteiro
Não quero só teu corpo
Somente assim te amarei

Preciso imaginar
Se vou te reconhecer
Quando o dia raiar

foto: Quadro de Picasso -Herege

08/06/2011

ANTICONTO MITOLÓGICO – Lucinda Prado


Sempre senti pavor de fim de mundo e toda cena de tempestade em alto-mar me faz lembrar um quadro de Nossa Senhora da Guia, que existia pendurado entre outros tantos, no quarto de minha mãe. Na minha infância, eu adorava ficar olhando para cada um deles e me deleitava ouvindo as histórias de todos os santos... Quantos martírios, quantas histórias de sofrimento! Minha imaginação de criança dava piruetas olhando as cenas, pintadas com certos exageros, naquelas gravuras, certamente para quê os Santos fossem valorizados.

“Será que para ser Santo tem que sofrer assim”? – Eu me perguntava, rebelde.
“Se não pode existir Santo sem lamento... Quero ser santo nunca” – afirmava.

O Quadro era assim, digamos o 3x4 de quadro, entende? Pois bem - era o mar revolto - parecido com o fim do mundo, e três pescadores em um barquinho. As ondas muito agitadas pela tempestade empurravam o barco cada vez mais para o alto- mar. Não se via uma luz sequer, pois estrelas e luas fugiram amedrontadas com o rosnar de Tupã - o deus trovão. As estrelas foram à procura de Thor, pois ele possuía um martelo chamado Mjolnir e este martelo tinha o poder de lançar os raios para algures. Mas Posêidon, o Deus do mar, estava em fúria porque seu pai, Cronos, havia traído sua mãe Réia e se enfeitiçado por Atenas. Anfitrite, a esposa de Posêidon, estava grávida de Tristão, o deus dos abismos oceânicos, e andava tendo uma gravidez de risco, não poderia sofrer qualquer tipo de aborrecimento. A Lua que havia marcado um encontro com o deus sol para o dia seguinte, jurava que iria se queixar para seu fogoso namorado sobre as atitudes inconsequentes de Posêidon.

Enquanto os deuses se entendiam, os três pescadores, que por acaso se chamavam Dorival, Caymmi e Maracangalha, eram simples pescadores lá para os lados da Bahia, cada vez mais viam suas vidas em perigo... Rezavam e apelavam para todos aqueles santos vizinhos de parede do quarto - São Sebastião com suas lanças cravadas por todo o corpo, São Benedito protegendo os negros contra brancos, São Pedro pendurado de cabeça para baixo em um poste, os anjinhos, Nossas Senhoras de todos os nomes, Maria, Abadia, Do Carmo, Nazaré, Aparecida... Enfim todas elas em seus quadros 3x4 observavam os acontecimentos. Foi quando um Querubim arretado, saiu de seu quadro 3x4 entrou sorrateiro no quadro dos pescadores e soprou ao ouvido de Caymmi que a Santa que poderia- lhes salvar era Ninfa, deusa da natureza, e que se sabia ter tido um caso com Hércules, o mais poderoso dos deuses, quando ela era pouco mais que adolescente e que Hércules ainda apaixonado por ela, fazia todas as suas vontades. Mas o Cúpido ouvindo aquilo correu em socorro aos pescadores e avisou que ela só atenderia pelo nome Nossa Senhora da Guia. Foi quando uma onda enorme levantou o barquinho em sua crista e, assim na crista da onda, Dorival e Caymmi deu um grito de desespero:
“Nossa Senhora da Guia!”
Nesse momento o céu se rasgou em dois e do meio surge Ela, linda, serena e majestosa, ordena para que os deuses parem de brigar e dá-lhes uma bronca, recoloca cada um no seu quadro. O mar se acalma. A lua, com suas hormonas em ebulição, corre para se despedir do sol, lança um olhar comprido para seu amado que vai caminhando e brigando com as nuvens por elas tentarem impedir que ele brilhe e as acusam de ter um pacto com o deus da noite que fica sempre de conversa com sua amada lua.
As estrelas voltaram sorrindo desconfiadas, com olhares faiscantes de quem andou fazendo amor nas alturas.
Dorival, Caymmi e Maracangalha acordam em suas camas ouvindo o deus da música cantar assim:

*O pescador tem dois amor
Um bem na terra, um bem no mar
O bem de terra é aquela que fica
Na beira da praia quando a gente sai...
O bem de terra é aquela que chora
Mas faz que não chora quando a gente sai
O bem do mar é o mar, é o mar
Que carrega com a gente.
Pra gente pescar

* O Bem do Mar – Dorival Caymmi


Foto:Lucinda Prado - O quadro que inspirou o conto.

07/06/2011

Maria e José -Lucinda Prado & Monsyerrá Batista

Era Maria
Sonhos e fantasias de menina
Trazia a coralina...
Maria vinha de cora
Vinha pura, vinha limpa
Maria corria, Maria dançava.
Maria cantava e sorria
Maria era Livre

Era José
Que chegou
Lá das bandas dos Campos Elíseos
Veio no seu cavalo alado
Trazendo as mãos cheias
De estórias de lutas
Castelos, bruxas, donzelas
Dragões e espadas heroicas
José amava a justiça
E a liberdade

Agora
Era Maria
Era José
Era José e Maria
O novelo e a agulha
Que em sua dança
Rodopiava, tecendo a trama
Que o coração
Conhece e fia

José não era mais cavaleiro
Era um anjo da conquista
Era no céu risonho da bela
Heroico mito de Heitor
A luz do sol e da fantasia
Cantado em versos, prosas
Contos e poesias
Era o ar que ela respirava
Era Maria apaixonada
Era José oitava maravilha
Agora era tudo diferente
O mundo inteiro para dois amantes
Frenéticos e apaixonados
Todos encantos de amor e prazer
Selaram pactos, trocaram juras
Românticos castelos visitaram
José acomodou das aventuras
Pra dedicar-se inteiro ao amor

Não mais lutava, com dragões e bruxas
Cantava loas, declamava versos
Toda lua cheia era para Maria
Mas chegou um dia José se calou
Suspirou um tanto entediado
Não fazia mais versos, nem cantava
Seu olhar perdeu-se no vazio
E Maria agora já não empolgava
Viu-se reclamada companhia.
Maria observava, Maria pedia
Se chorava ninguém sabia
Maria sentia, Maria sofria
Não via mais nele a mesma alegria
Tudo ao redor era cinza rotina
E Maria pediu
E Maria rezou
E Maria entendeu o que o acometia

Lá se foi José no seu cavalo alado
Levou sua Maria só no coração
Vestiu a armadura de lutas de outrora
Pra outras aventuras, pra outras dimensões
Lá ficou Maria junto do castelo
A se olharem de longe nas dobras da lua
Com longos bordados
Feitos de renuncia
Feitos de ternura, amor e devoção

Depois da partida veio a tempestade
Depois a bonança em seu coração
Maria acordou certo dia
Surpresa, voltara a sonhar
José também, e voltou a lutar

Maria sentia-se novamente amada
José percebia que ela
Era sua força para vencer
E nas noites de lua, vem vindo José
Aninhar-se no leito de sua Maria
Agora o castelo só sabe dizer
Maria José
José Maria.

**Versão da obra original de Lucinda Prado feita por Monsyerrá Batista

20/05/2011

Pelos Grandes Sertões das Gerais – Lucinda Prado

Não era novo nem velho, nem bonito nem feio
Só sei que apareceu numa curva da estrada...
Veio vindo com sua montaria garbosa, altaneira.
A estrada? Essa que era feia, riscada de xadrez
de chuva derramada aos potes.

Cavaleiro e cavalo, em completa harmonia.
O de cima, de vestimenta, um capote e uma capa
Que se espalhava rodadamente sobre o dorso do debaixo
Que vinha no tropeço da estrada de terra sovada
Trazendo na retaguarda um cachorro julim.

O que vinha em cima da montaria cabalina
espalhava nos lábios um sorriso de ouro
Levantou a mão a nos saudar
dedos de cigarro, unhas de terra escavada

Assim como o vento, passou retinindo esporas
Retinindo esporar evaporou no vento
Zé Bebelo?Riobaldo?Ou seria Zeca Ramiro?
Voltando dos grandes sertões das gerais.


Ai meu compadre Quelemém!
me explica lá este acontecimento,
Será que foi o Medo que agarra a gente pelo enraizado
Ou foi porque o mundo esta todo desarrumado?

***

Zé Bebelo, Riobaldo, Zeca Ramiro Compadre Quelemém - Personagens de Guimarães Rosa

30/04/2011

Deixar Ir - Lucinda Prado e Adalton Miguel


Habitante de meus sonhos
Quero te libertar
És a sombra de minhas noites
És da noite, o luar
Companheiro de estrelas
Minha luz do amanhecer
Se te fores de meus sonhos
Levaras meus versos, minhas falas
Meu viver

És como Uirapuru, sutil e cantador
Quero dormir sonhos profundos
Tecer meus dias em outra manhã
Você meu habitante de luz
Quero te libertar

Calma, não se apresse meu amor
Estou aprendendo a deixar ir
Pois não sei como ficar
Venha, segure minha mão
Me ensine a te libertar.

Habitante dos meus sonhos
Minha luz, meu céu, meu mar
Vou deixar você partir
Para assim não me deixar

Habitante dos meus sonhos
Só queria te amar
Pra dos seus sonhos não sair
Nunca mais vou acordar

Calma, não se apresse meu amor…

Habitante dos meus sonhos
Sonhe sonhos cor do mar

18/04/2011

A menina que procurava - Lucinda Prado

E lá estava ela feliz e serelepe correndo para o seu lugar preferido, o coche do curral. Certificando que estava sozinha, entra e se deita dentro do tabuleiro com rebordas, este lugar normalmente é usado para colocar sal para o gado, mas ela descobriu que era perfeito para acomodar seu corpinho magro de menina de cinco anos. Ali naquele momento ela se perdia no seu passatempo preferido, ficar olhando para as nuvens tentando associar suas formações com alguns objetos ou animais. Mas ela também se descobria melancólica e saudadosa, na maioria das vezes que procurava seu esconderijo. Ficava horas mirando o céu como se procurasse alguém por detrás daquelas nuvens, que o vento teimava em conduzir com se fossem tufos de algodão acabado de sair das cardas e, nessas horas, uma saudade quase incontrolável tomava conta de seus sentimentos ainda pueris. Choramingando, ela procurava pelo colo de sua mãezinha em busca de consolo para sua dor, da qual, ela sequer suspeitava de onde vinha. Eram uma preocupação familiar, essas crises. Sua avó, sempre achava que a Dona Chiquita poderia dar um jeitinho fazendo algumas orações e benzendo a menininha com um ramo de alecrim. Sua mãe dizia que não era para ela voltar nunca mais a aquele lugar, mas ela sempre retornava e sempre a mesma saudade que lhe invadia a alma sonhadora.
Tempos depois, a família se muda para a cidade para que os filhos fossem para uma escola regular. O Pai, um autodidata, fazia questão de deixar como herança para as filhas, o estudo. Dizia que assim elas teriam uma profissão e jamais necessitariam de um marido para ser feliz.
Lá se foi nossa menininha para a cidade, e longe do cocho como seria? Mas era nato nela essa precisão de ouvir o silêncio interior. Então ela improvisou um lugar, fez as adaptações necessárias juntando duas cadeiras, que ela colocava estrategicamente bem no meio do quintal, onde nada pudesse impedir sua visão quase celestial. Já nesse período ela começava a ter a percepção de que buscava alguém, mas quem? Ela não sabia a resposta para essa pergunta que guardava trancada dentro de seu coraçãozinho. O tempo foi passando, ela se tornou adolescente, e depois, adulta. Mesmo antes dessa fase, ela se casou teve filhos e logo em seguida se divorciou. Viveu alegrias e tristezas naturais da vida, mas conquistou muitas coisas boas. Viveu muitos amores, uns mais calorosos e outros nem tanto, mas jamais se esqueceu daquela busca que a perseguia desde criança. Nessa fase, entendia que teria a resposta para esta procura.
Um dia ela teve a resposta tão esperada, bastando que ele a olhasse e a deixasse espreitar bem no fundo de seus olhos, para que ela pudesse ter plena confiança de ter encontrado o que buscava por detrás das nuvens.
Lucinda Prado

10/04/2011

Incertezas – Lucinda Prado


O Amor esta se instalando,
Dentro do peito estrondo...
Roncos, gritos, uivos...
Insônia

Fome canina
Chamas ardentes
Medo...?
Amor chamando?

Luta desesperada
Entre incertezas...
Amo. Não amo?
Não quero... Prorrogo.

Chegou se instalou...
É agora?

(da série Divagando)
Foto: Lucinda prado - Monte Castelo -GO

06/04/2011

Porta-retratos – Lucinda Prado


Amaria teus abraços
No lugar do porta-retratos
Que nunca tem teu perfume.
Passeiam em mim teus toques
Das manhãs que passeávamos de mãos dadas
Ressoa em mim, suas rimas bem feitas
Roça em mim, teu corpo quente
Teu cantar sem jeito
Seus versos espremidos
Em meu ouvido
Comprimidos...
Meu gemido sem dor
Aprontando um verso de nós dois
No convexo de corpos
Num abraço noturno
De um misturar de sonhos
Dos corpos colados
Suados...
No beijo selado
Do porta-retratos.
(Da série divagando)

29/03/2011

Delírios - Lucinda Prado


Hoje vejo rostos vincados pelo tempo
Vejo velhos de sonhos não realizados
Nossos brinquedos inventados jogados no esquecimento do porão
Os amigos se foram para o estrangeiro ou se encontram esquecidos
Em algum canto de suas próprias mentes.
Na retina do tempo afago minhas lembranças
Das casas brancas desenhadas a giz
Portas azuis de anil e calçadas de pedras

Era uma época de muitas colheitas
Colhíamos saber brincando nas ruas
Nos assustávamos com raios e trovões
Olhávamos da janela azul a goteira cavando o solo
Descobríamos uma flor cultivada pelo orvalho
Tomávamos agua da bica com medo de sacis
Andávamos na enxurrada correndo de lobisomens
Riamos as gargalhadas sem medo de envelhecer.

Não tínhamos essas mãos trêmulas
Nem esse olhar sem brilho, sem esperança
Tínhamos um mundo a nossa frente
Éramos destemidos e arrogantes com o amanhã
Pensávamos que o futuro não estava ao nosso alcance
Mas ele nos alcançou no meio do caminho
E com ele seguimos galopantes.
(Da série - Divagando )

28/03/2011

Inquietude – Lucinda Prado


Somos seres às vezes confusos
Às vezes cismadores e adoráveis
A procura de algo inexplicável
Remoemos nossas angustias pessoais
Culpamos nossos desafetos
Amamos o incerto
Queremos dissecação
E nos perdemos oceano profundo
De nosso ser abismal
A procura do Perfect

28/02/2011

Divagando - Lucinda Prado


Agora me permita olhar além de mim
Para a vida que vem lá
Com meus medos
Minhas dúvidas
Minhas tristezas
Minhas alegrias
Meus desejos
Para meu futuro eterno.
Lucinda prado

26/02/2011

A DIFÍCIL ARTE DE ESCREVER



Vinte e uma coisas que aprendi como escritor

Moacyr Scliar

APRENDI que escrever é basicamente contar histórias, e que os melhores livros de ficção que li eram aqueles que tinham uma história para contar.

APRENDI que o ato de escrever é uma seqüela do ato de ler. É preciso captar com os olhos as imagens das letras, guardá-las no reservatório que temos em nossa mente e utilizá-las para compor depois as nossas próprias palavras.

APRENDI que, quando se começa, plagiar não faz mal nenhum. Copiei descaradamente muitos escritores, Monteiro Lobato, Viriato Correa e outros. Não se incomodaram com isto. E copiar me fez muito bem.

APRENDI que, quando se começa a escrever, sempre se é autobiográfico, o que - de novo - não prejudica. Mas os escritores que ficam sempre na autobiografia, que só olham para o próprio umbigo, acabam se tornando chatos.

APRENDI que, para aprender a escrever, tinha de escrever. Não adiantava só ficar falando de como é bonito ( ... )

APRENDI que uma boa idéia pode ocorrer a qualquer momento: conversando com alguém, comendo, caminhando, lendo (e, segundo Agatha Christie, lavando pratos).

APRENDI que uma boa idéia é realmente boa quando não nos abandona, quando nos persegue sem cessar. O grande teste para uma idéia é tentar se livrar dela. Se veio para ficar, se resiste ao sono, ao cansaço, ao cotidiano, é porque merece atenção.

APRENDI que aeroportos e bares são grandes lugares para se escrever. O bar, por razões óbvias; o aeroporto, porque neles a vida como que está em suspenso. Nada como uma existência provisória para despertar a inspiração literária.

APRENDI que as costas do talão de cheque é um bom lugar para anotar idéias (é por isso que escritor tem de ganhar a grana suficiente para abrir uma conte bancária). O guardanapo do restaurante também serve, desde que seja de papel e não de pano. (...)

APRENDI que o computador é um grande avanço no trabalho de escrever, mas tem um único inconveniente: elimina os originais, os riscos, os borrões, e portanto a história do texto, a qual - como toda história - pode nos ensinar muito.

APRENDI que a mancha gráfica representada pelo texto impresso diz muito sobre este mesmo texto. As linhas não podem estar cheias de palavras; o espaço vazio é tão eloqüente quanto o espaço preenchido pela escrita. O texto precisa respirar, e quando respira, fica graficamente bonito. Um texto bonito é um texto bom.

APRENDI a rasgar e jogar fora. Quando um texto não é bom, ele não é bom - ponto. Por causa da auto-comiseração (é a nossa vida que está ali!) temos a tentação de preservá-lo, esperando que, de forma misteriosa, melhore por si. Ilusão. É preciso ter a coragem de se desfazer. A cesta de papel é uma grande amiga do escritor. (...)

APRENDI a não ter pressa de publicar. Já se ouviu falar de muitos escritores batendo aflitos, à porta de editores. O que é mais raro, muito mais raro, são os leitores batendo à porta do escritor.

APRENDI a não reler meus livros. Um livro tem existência autônoma, boa e má. Não precisa do olhar de quem o escreveu para sobreviver.

APRENDI que, para um escritor, um livro é como um filho, mas que é preciso diferenciar entre filhos e livros.

APRENDI que terminar um livro se acompanha de uma sensação de vazio, mas que o vazio também faz parte da vida de quem escreve.

APRENDI que há uma diferença entre literatura e vida literária, entre literatura e política literária. Escrever é um vício solitário.

APRENDI a diferenciar entre o verdadeiro crítico e o falso crítico. O falso crítico não está falando do que leu. Está falando dos seus próprios problemas.

APRENDI que, para um escritor, frio na barriga ou pêlos do braço arrepiados são um bom sinal: um livro vem vindo aí.

06/02/2011

Minha Amada Imortal - Nona sinfonia de Beethoven



A carta a Amada Imortal, encontrada após a morte de Beethoven, juntamente com o "Testamento Heiligenstadt" é composta de duas páginas duplas escritas em ambos os lados (8 páginas), de aproximadamente 200 x 238 mm e em uma única folha de aproximadamente 201 x 119 mm, também escrita em ambos os lados. Conseqüentemente um total de 10 páginas.

A carta foi escrita a lápis. A análise cuidadosa mostra que determinadas palavras tiveram de ser avivadas a lápis, numa tentativa de torná-las mais legíveis, sem dúvida por Anton Schindler, que usou parte da carta em fac-símile na terceira edição de sua biografia de Beethoven. As páginas foram numeradas por Schindler, destacando certas passagens, por exemplo, "Oh geh mit, geh mit" (literalmente, "oh vem com" ou então "vem comigo" ou "acompanhe-me").
Uma das cenas mais lindas do filme MINHA AMADA IMORTAL

Dois selos podem ser vistos no topo das páginas 1 e 5 que são as marcas da Biblioteca de Berlim.

Escolhi esses dois trechos da carta
por achá-los lindos e poéticos...

Manhã de 6 de julho

Meu anjo, meu tudo, meu eu... Por que esta profunda tristeza quando é a necessidade quem fala? Pode consistir nosso amor em outra coisa que em sacrifícios, em exigências de tudo e nada? Esqueceu de que você não é inteiramente minha e de que eu não sou inteiramente seu? Oh, Deus!

Contempla a maravilhosa natureza e tranqüiliza seu ânimo na certeza do inevitável. O amor exige tudo e com pleno direito: eu para com você e você para comigo. No entanto, duvida tão facilmente que eu tenho que viver para mim e para você. Se estivéssemos completamente unidos, nem você nem eu estaríamos nos sentindo tão desolados. Minha viagem foi horrível...

Alegre-se, você é o meu mais fiel e único tesouro, meu tudo como eu para você. No mais, que aconteça o que tenha que acontecer e deva acontecer; os deuses saberão o que fazer...

Tarde de segunda-feira. Você sofre. Ah! onde estou, também ali está você comigo. Tudo farei para que possamos viver um ao lado do outro. Que vida!!! Assim!!! Sem você... perseguido pela bondade de algumas pessoas, que não quero receber porque não as mereço. Me dói a humildade do homem diante do homem. E quando me acho em sintonia com o Universo, o que sou e quem é aquele a quem chamam o Todo Poderoso? E sem dúvida... aí então aparece de novo o divino do homem. Choro ao pensar que provavelmente não receberá minha primeira carta antes de sábado. Tanto como você me ama, muito mais a amo!... Boa noite! Devo ir dormir. Oh, Deus! Tão perto! Tão longe! Não é nosso amor uma verdadeira morada do céu? E tão sólido como as muralhas do céu?!

7 de julho

Bom dia! Todavia, na cama se multiplicam meus pensamentos em você, minha amada imortal; tão alegres como tristes, esperando ver se o destino quer ouvir-nos. Viver sozinho me é possível, ou inteiramente com você, ou completamente sem você. Quero ir bem longe até que possa voar para os seus braços e sentir-me num lugar que seja só nosso, podendo enviar minha alma ao reino dos espíritos envolta em você. Você concordará comigo, tanto mais conhecendo minha fidelidade, e que nunca nenhuma outra possuirá meu coração; nunca, nunca...

Oh, Deus! Por que viver separados, quando se ama assim? Minha vida, o mesmo aqui que em Viena: sentindo-me só, angustiado. Você, amor, me tem feito ao mesmo tempo o ser mais feliz e o mais infeliz. Há muito tempo de que preciso de uma certeza em minha vida. Não seria uma definição quanto ao nosso relacionamento? Anjo, acabo de saber que o correio sai todos os dias. E isso me faz pensar que você receberá a carta em seguida.

Fique tranqüila. Contemplando com confiança nossa vida alcançaremos nosso objetivo de vivermos juntos. Fique tranqüila, queira-me. Hoje e sempre, quanta ansiedade e quantas lágrimas pensando em você, em você, em você, minha vida, meu tudo! Adeus, queira-me sempre! Não duvide jamais do fiel coração de seu enamorado Ludwig. Eternamente seu, eternamente minha, eternamente nossos.



— A Amada Imortal será sempre um mistério. Certos biógrafos afirmam que desconhecem, e até sugerem que, talvez a bem-amada de Beethoven, é alguém cujo nome ninguém nunca soube...

— Traduzido do original por Arnaldo Poesia.

29/01/2011

Paul Cezanne




Paul Cézanne
(1839-1906), Aix-en-Provence – França.

Cézanne pertencia a uma família tradicional e seu pai, banqueiro e autoritário, não aceitava a idéia do filho ser artista. Mas Cézanne tinha dificuldades para enfrentá-lo. Com o apoio de sua mãe, o pai acabou cedendo ao desejo do filho, que abandonou a faculdade de Direito e viajou a Paris, em 1861, para aperfeiçoar os estudos em pintura. Apesar da presença de seu grande amigo de infância, o (futuro) escritor Émile Zola, Cézanne não conseguiu adaptar-se ao ambiente artístico parisiense e, após seis meses, retornou a Aix e começou a trabalhar no banco do pai. Descontente com sua vida, largou o trabalho e voltou a Paris em 1862, quando passou a receber dinheiro do pai para se manter. Porém, não havia espaço para pintores inovadores em meio à arte acadêmica de Paris. Cézanne foi diversas vezes recusado no Salão Oficial, além de ser reprovado nos exames de ingresso na Escola de Belas Artes de Paris. Isto só veio a agravar sua instabilidade emocional, que o fazia voltar freqüentemente a Aix. Mesmo conhecendo vários artistas, seu modo de ser, irritadiço, tímido e aborrecido, impediu-o de travar relações duráveis com os grupos parisienses, fazendo com que o seu isolamento se tornasse cada vez maior. Em 1886, Cézanne rompeu relações com Zola que este publicou o romance A Obra - no qual o personagem principal é um artista fracassado com pensamentos e personalidade que se assemelhavam aos de Cézanne. Esse episódio trouxe muita dor a Cézanne e somou-se à morte do seu pai no mesmo ano. Passou a viver ainda mais isolado, obstinado em sua busca artística, contrariado com certas opiniões e depressivo. A personalidade anti-social do artista fica visível nas obras em que trata personagens humanos, como em Mulher com cafeteira, na qual a frieza e a rigidez da mulher a aproxima da própria figura da cafeteira. Segundo Márcio Doctors, é este isolamento do artista, sua busca por uma nova verdade para a arte a partir do mergulho em sua solidão intelectual, que irá gerar o mito anti-heróico de Cézanne, um dos mártires do início da Arte Moderna.

Mesmo nas obras do período em que esteve junto aos impressionistas, em 1872, é o aspecto solitário das pesquisas de Cézanne que salta aos olhos, a sua singularidade e a dificuldade de aquietar-se com os ideais artísticos de um grupo. O Impressionismo tomava a natureza pelo seu aspecto passageiro e traduzia-a em termos óticos, efeitos de luz e cor. Essa concepção efêmera da natureza não condizia com o pensamento de Cézanne. Por volta de 1878 ele afastou-se dos impressionistas para buscar a permanência da natureza através de sua estrutura construtiva. Começou a desenvolver seu próprio estilo, atento ao aspecto bidimensional da pintura. Cézanne não cria a ilusão do espaço, mas o constrói com objetos, na solidez de suas formas e volumes simplificados em sua essência geométrica. Afirmava que "tudo na natureza se modela como a esfera, o cone e o cilindro", tornando volume e espaço um só corpo estrutural. A cor modela a forma, como podemos observar em Natureza morta com maçãs e laranjas, e a pincelada constrói a cor, como podemos ver em Pirâmide de crânios.

Se crises depressivas acompanharam Cézanne por toda sua vida, foi sem dúvida a persistência, forte marca de sua personalidade, uma das principais responsáveis pelo desenvolvimento de sua genialidade artística. Sua pintura, que costuma ser enquadrado entre os pós-impressionistas, abriu novos caminhos para a arte do século XX, e trouxe uma nova concepção de percepção da realidade. Em obras como A montanha de Saint Victoire, o artista prenuncia as pesquisas do Cubismo.

15/01/2011

Meu passarinho, meu passarão!


Hoje o dia amanheceu de uma calmaria desconcertante. Abri a porta que dá para o quintal e me deparei com uma cena lindíssima! Fazendo a maior algazarra sobre a grama, um passarinho do papo amarelo, lindo e faqueiro tomava seu banho matinal na água que escorria do regador. Era um bem-te-vi festeiro.
Fiquei olhando aquela cena e me perdi em pensamentos.
Lembrei-me da história que minha mãe nos contava sobre como o João de Barro foi criado por Jesus. Ela nos contava que uma criança havia feito um passarinho de barro, e olhando sua obra acabada e tentando dar vida a ela, começou a rodopiar em volta do pássaro e batendo palmas dizia:
Voa passarinho! Voa passarinho! – E que Jesus vendo de longe a pureza do menino, o ajudou na sua façanha, dando vida ao passarinho, que saiu voando. Dai o menino resolveu que seu passarinho não poderia ficar sozinho no mundo e da mesma forma ele criou a D. Joaninha de Barro e que o casal de pássaros saiu feliz e se multiplicando pelo mundo de Deus.
Outra história que ela nos contava, talvez porque fomos criadas em uma fazenda, ela aproveitava o ambiente como ilustração para nos educar.
Tínhamos pavor dos bem-te-vis porque ela dizia que eles eram os pássaros do “capeta” e era considerado um dedo duro. Ela dizia que o bem-te-vi foi quem contou para os soldados onde estava Maria e José quando eles fugiam com o menino Jesus e que somente não tinham sido descobertos pelos soldados porque o João-de-barro os havia escondido em sua casinha de barro.
Esta era a maneira um tanto pueril que nossa mãe encontrou de nos falar de traição.
Mas agora eu ali olhando aquele bem-te-vi, comecei a rir do nosso pavor infantil.
Moro numa rua chamada Rouxinol, aliás, todas as ruas do bairro trás o nome de um pássaro. E acredito que isto tenha uma razão de ser. Aqui todos os anos recebemos a visita de milhares de andorinhas que migram do Canadá para o Brasil fugindo do inverno rigoroso da América do Norte. Elas vêm em milhares, cruzam o céu batendo freneticamente suas asas delicadas, num barulho quase assustador... Aninham-se nas copas das árvores da rua. O barulho que fazem é enorme e a sujeira também. Quando amanhece o dia, embaixo das árvores, fica uma lama de fezes e isto leva alguns vizinhos a tomarem medidas nada corretas, chegam ao cúmulo de cortar a copa das árvores deixando apenas os troncos. Outros soltam fogos, outros ainda batem tampas de panelas, na esperança de espantá-las dali... Tudo em vão.
Esses adultos zangados se esquecem de suas infâncias, não se lembram das falas dos mais velhos que diziam que as andorinhas foram criadas por Deus para alegrar Maria e também para brincar com menino Jesus.
Lucinda Prado