24/07/2026

 


ANTICONTO Mitológico ( revisado)

Lucinda Prado

À minha mãe, que respondia às minhas perguntas contando histórias.

Desde menina sinto pavor de fim de mundo, e toda cena de tempestade em alto-mar me faz lembrar um quadro de Nossa Senhora da Guia que ficava pendurado, entre tantos outros, acima da cama de minha mãe.

Na infância, eu adorava ficar olhando para cada um deles e me deleitava ouvindo as histórias de todos os santos. Quantos martírios! Quantas histórias de sofrimento! Minha imaginação dava piruetas diante daquelas gravuras, pintadas com certos exageros, certamente para que os santos fossem ainda mais valorizados.

Será que, para ser santo, tem que sofrer assim? — eu me perguntava, rebelde.

Se não pode existir santo sem lamento… quero ser santa nunca! — decretava.

O quadro era pequeno, coisa de um 3x4 pendurado na parede, entende?

Pois bem.

Era o mar revolto, parecendo o fim do mundo, e três pescadores em um barquinho. As ondas, agitadas pela tempestade, empurravam a embarcação cada vez mais para o alto-mar. Não se via uma luz sequer. Estrelas e lua haviam fugido, amedrontadas com o rosnar de Tupã, o deus do trovão.

As estrelas foram à procura de Thor, pois ele possuía um martelo chamado Mjolnir, capaz de lançar raios para algures. Mas Poseidon, o deus do mar, estava em fúria porque seu pai, Cronos, havia traído sua mãe, Réia, e resolvera enfeitiçar-se por Atena, sem a menor preocupação com a cronologia mitológica. Anfitrite, esposa de Poseidon, estava grávida de Tristão, deus dos abismos oceânicos, e vivia uma gravidez de risco; não podia sofrer qualquer aborrecimento. A Lua, que havia marcado um encontro com o deus Sol para o dia seguinte, jurava que iria reclamar ao seu fogoso namorado das atitudes inconsequentes de Poseidon.

Enquanto os deuses se entendiam, os três pescadores, que por acaso se chamavam Dorival, Caymmi e Maracangalha, eram simples pescadores lá pelos lados da Bahia e viam suas vidas cada vez mais em perigo.

Rezavam e apelavam para todos aqueles santos vizinhos da parede do quarto: São Sebastião, com suas lanças cravadas pelo corpo; São Benedito; São Pedro, pendurado de cabeça para baixo; os anjinhos; Nossas Senhoras de todos os nomes — Maria, da Abadia, do Carmo, de Nazaré, Aparecida… Enfim, todas elas, em seus quadros 3x4, observavam silenciosamente os acontecimentos.

Foi então que um querubim arretado saiu de seu quadro, entrou sorrateiro no quadro dos pescadores e soprou ao ouvido de Caymmi que a santa capaz de salvá-los era Ninfa, deusa da natureza, de quem se dizia ter vivido um romance com Hércules, herói que vivia metido a deus, quando ela era pouco mais que adolescente. Hércules, ainda apaixonado, fazia todas as suas vontades.

Mas Cupido, ouvindo aquilo, correu em socorro dos pescadores e avisou que ela só atenderia pelo nome de Nossa Senhora da Guia.

Foi quando uma onda enorme ergueu o barquinho sobre sua crista e, lá do alto, Dorival e Caymmi deram um grito desesperado:

Nossa Senhora da Guia!

Nesse instante, o céu rasgou-se em dois e, do meio da claridade, surgiu Ela: linda, serena e majestosa.

Com um simples gesto, ordenou que os deuses parassem de brigar. Deu-lhes uma bronca daquelas, recolocou cada um no seu respectivo quadro e devolveu a paz ao mar.

A Lua, com seus hormônios em ebulição, correu para se despedir do Sol e lançou um olhar comprido para o amado, que caminhava brigando com as nuvens por tentarem esconder seu brilho. Elas, por sua vez, acusavam o Sol de sentir ciúmes do deus da noite, que vivia proseando com sua amada Lua.

As estrelas voltaram sorrindo, desconfiadas, com olhares faiscantes de quem andou fazendo amor nas alturas.

E foi assim que o velho quadro voltou a ser apenas um quadro.

Dorival, Caymmi e Maracangalha acordaram em suas camas ouvindo o deus da música cantar:


*O pescador tem dois amor

Um bem na terra, um bem no mar 

O bem de terra é aquela que fica

Na beira da praia quando a gente sai...

O bem de terra é aquela que chora

Mas faz que não chora quando a gente sai

O bem do mar é o mar, é o mar

Que carrega com a gente.

Pra gente pescar 


* O Bem do Mar – Dorival Caymmi



Foto:Lucinda Prado - O quadro que inspirou o conto.